Planejar os descansos ao longo do dia: a chave para escapar do esgotamento

Planejar os descansos ao longo do dia: a chave para escapar do esgotamento
Foto: Artem Beliaikin no Pexels
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Não tenho mais descanso, e você? Não falo de férias. Nem dos finais de semana invadidos por trabalho — e, neles, quando tento não trabalhar, sempre me lembro de algo que está à espera de ser feito na casa ou de uma aula a que preciso assistir com atraso. Também não falo só que ando dormindo pouco, mas da sensação de que tudo e todos me consomem até a última gota de ânimo.

Daí a cabeça, que parece se pendurar oca em um corpo quase sempre doído, confunde as ideias. Tem preguiça de pensar até em coisas boas. Sei que não estou sozinha. Mas, noite dessas, hipnotizada pela vida dos outros na rede social e fazendo força para erguer as pálpebras pesadas, eu me deparei com a divulgação de um curso criado por suas feras.

Uma delas, Marcos Rojo, professor aposentado da Escola de Educação Física da USP, mestre em neurologia e coordenador do IEPY ( Instituto de Ensino e Pesquisa em Yoga). O outro nome era o da neurocientista Elisa Kozasa, pesquisadora do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde é também professora de pós-graduação.

O curso se chamava “A arte de descansar, bases para se recuperar do cansaço físico e mental”. Soava sob medida para mim — e, quem sabe, para você. Ele abordaria, com alguns convidados de boa cepa na investigação do nosso bem-estar, a importância do sono e do espreguiçamento, a contemplação da natureza e de coisas simples.

Mas o que deixou curiosa foi a aula sobre o planejamento do descanso como estratégia fundamental para a saúde. Esse seria o único caminho para afastar a ameaça de esgotamento ou escapar dele, para quem já caiu nesse poço sem fundo.

Descansar deixou de ser natural

“Descansar hoje em dia requer atenção”, comenta a professora Elisa Kozasa. “Não é simplesmente parar, porque a mente pode continuar a mil. O descanso, que deveria ser tão natural, já não acontece se você não se organiza direito.”

Sim, ele exige uma organização tão meticulosa quanto fazer a lista do supermercado para garantir os alimentos de uma dieta equilibrada, por exemplo. E talvez seja um planejamento até mais complicado de a gente colocar em prática. Ora, insistindo na comparação, se não é todo dia que você ataca uma panela de brigadeiro, com o cérebro é diferente. Ele é tentado a todo instante.

“Vivemos na sociedade do cansaço”, afirma a professora Elisa, parafraseando o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Professor da Universidade de Berlim, na Alemanha, ele é um observador destes tempos em que as pessoas se sentem fatigadas até sem fazer nada e que terminam um dia de trabalho achando que não renderam o suficiente.

A professora Elisa dá mais pitadas de filosofia: “Antes, tínhamos uma sociedade disciplinar”, diz, lembrando um conceito do francês Michel Foucault (1926-1984). Por definição, seria aquela sociedade em que a gente sofreria penalidades, da suspensão na escola à multa do guarda. Ou você cumpriria suas obrigações e andaria na linha ou alguém lhe pegaria no flagra.

Não que isso tenha deixado de existir. Mas não precisamos mais de tantos algozes externos na era da sociedade do desempenho, descrita pelo sul-coreano que se tornou uma espécie de biógrafo do nosso cansaço. A gente mesmo se chicoteia e se penaliza.

“Cada um acha que é o único responsável pelo seu sucesso e, se duvidar, pelo da empresa também. Daí que precisa ter altíssima produtividade e dizer sim para todos os compromissos, que vão de reuniões a cursos, lives, palestras e tudo mais”, reflete a professora Elisa.

Soma-se a isso o avanço das tecnologias digitais. Antes, a pessoa se sentia desplugada se saía de casa sem ter lido o jornal do dia. Agora, ela se agonia por ter passado poucas horas sem ter conferido no celular se o mundo continuaria girando. Pare ao menos para pensar: é em um piloto-automático de agitação.

Quando se cansar é um vício

A neurocientista compara o que nos acontece hoje com o que ocorria a ratinhos de experiências clássicas dos anos 1950, quando foram descobertos os centros de recompensa no cérebro. Sempre que os animais colocavam as suas patinhas em um determinado pedal, esses centros eram estimulados.

Em uma segunda etapa, porém, antes de chegarem ao pedal, levavam um choque bem doloroso. Apesar dele, em busca da sensação de prazer, os ratos insistiam, ignorando a descarga elétrica. Depois de repetirem o comportamento milhares de vezes automaticamente, caíam esgotados.

“No sistema nervoso, é a mesma coisa com o uso de drogas. Elas despertam prazer, enquanto levam a efeitos devastadores sem a pessoa se dar conta. Hoje, agora, somos viciados em tarefas e em informação”, explica.

A pausa entre uma atividade e outra

Se quando lhe perguntam se tudo está bem, você diz que sim porque está tocando mil projetos ou se para provar a si próprio que está bem disposto espreme o tempo para fazer postagens, lives e todo tipo de curso, pode apostar que tudo isso serve de estímulo para os centros de recompensa do sistema nervoso. O problema é que a ausência de pausas equivaleria aos choques. E, como os animais, você ignora essa dor.

“Nunca vimos tantos casos de exaustão ou burnout como no presente”, nota Elisa Kozasa. “A ciência demonstra essa estimulação constante pode levar a doenças cardiovasculares e à propensão a demências a longo prazo”, informa a professora. O efeito mais imediato, porém, é a sua capacidade de foco pifar.

A atenção, estimulada além da conta, é a primeira a se deteriorar. Por isso, a primeira dica é nunca encavalar compromissos. “Entre uma reunião e outra, o cérebro precisa de uma pausa. O ideal é que ela seja de uns 15 minutos”, informa a pesquisadora.

Cuidado: contrariando os gurus da produtividade que mandam você deixar para fuçar as redes sociais só nesses momentos, fique longe delas. O caleidospio do seu feed funciona como mais estímulo — e choque.

Não precisa meditar ou fechar os olhos por uns instantes, embora possa ser interessante. O importante é não ocupar a mente com informações externas. Vale lavar 15 minutos de louça. “Até aconselho as pessoas em home-office a saírem para dar uma única volta no quarteirão”, conta a neurocientista. Isso funcionaria como uma água fria nos centros de atenção superaquecidos.

Elisa Kozasa, aliás, propõe um exercício que exige disciplina. “Antes de anotar o horário de uma reunião ou de qualquer outro compromisso na agenda do dia ou da semana seguinte, reserve momentos de descanso que devem ser inegociáveis”, ensina.

O tempo de sono

“Você sabe quantas horas precisa dormir para acordar bem. Então, pense no horário em que precisa acordar, faça as contas de trás para frente e marque quando ir para a cama”, diz a professora. Lembre-se: este, como os outros, deve ser um compromisso inadiável.

Quanto tempo você precisa para almoçar?

E, claro, para tomar o café da manhã e jantar também. Preencha esse intervalo na agenda. “O momento de comer precisa ser de pausa. Não só pelo sistema nervoso, mas porque, sentindo que estão em um intervalo reservado para a refeição, a gente observa que as pessoas fazem melhores escolhas alimentares”, informa Elisa.

Guarde 15 minutos para o “número 2”

Um erro, garante a professora Elisa, é terminar o café da manhã e escapulir para o trabalho. Segundo ela, o aparelho digestivo precisa de 10 a 15 minutos para iniciar seus movimentos que, especialmente pela manhã, costumam culminar em uma ida ao banheiro. “Muitas vezes isso não acontece simplesmente porque as pessoas não se dão esse tempo”, nota

Talvez você pense o que uma necessidade fisiológica dessas tem a ver com a sua cabeça. Mas entenda tudo é treino para tirá-la daquele piloto-automático.

Um intervalo para se movimentar

O sedentarismo traz consequências danosas para o corpo — e para o sistema nervoso também. Por isso, não substitua em sua agenda o horário que guardou para alguma atividade física por nada.

Um momento para os outros

Estudos demonstram que cultivar suas relações — com a família ou com amigos — é fundamental para a saúde mental e até mesmo para longevidade. “Quem tem crianças em casa precisa considerar um tempo para dar-lhes atenção”, sugere a professora. E, ok, talvez você não consiga falar com amigos todos os dias. Mas tenha em mente que eles são importantes até para a sua saúde, nem que deixe essas conversas para os finais de semana que, segundo a neurocientista, deveriam ser sagrados, salvo exceção.

O resto do dia

A primeira impressão é de que não sobrará tempo para mais nada — para a reunião, para a faxina, para a lição, para o que for. Mas o cérebro, garante Elisa, estará muito mais atento e sereno desse jeito. Ou seja, a tendência será tocar a sua vida maneira mais plena. E encontrar um tempo até para descobrir os seus reais sonhos e necessidade. Pois, como diz a professora, quem não descansa não se conhece.

Fonte: UOL

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