O relato de um ex-homofóbico

O relato de um ex-homofóbico
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Olá, pessoal. Me chamo Diego Hervani, sou jornalista de Natal/RN e dono/pauteiro/repórter do portal Potiguara Online (sigam nosso Instagram). Movido pelos debates dos últimos dias por causa das postagens do jogador de vôlei Maurício Souza, resolvi escrever sobre como deixei meu passado homofóbico para trás. Sim, quem me conhece hoje não sabe, mas já fui bastante homofóbico.

Meus pais vieram de família humilde do Seridó do Rio Grande do Norte, mais precisamente de Caicó. Se dedicaram bastante na vida e deram para mim e meu irmão uma vida de família classe média, na capital do nosso Estado. Estudei toda a minha vida em escola particular católica, o finado Colégio Imaculada Conceição (CIC).

As pautas ‘homossexualidade’ e ‘religiosidade’ nunca estiveram nas discussões familiares. Na minha cabeça de criança e adolescente – hoje tenho 34 anos – sempre esteve presente o que era me passado pelos professores da minha escola, inclusive nas aulas de religião que tínhamos toda semana: ‘família é homem e mulher’.

Com apenas esses ‘ensinamentos’ sobre o tema, eu não poderia ter crescido de maneira diferente. Quando criança e até por volta dos meus 15 anos, tinha verdadeira repulsa contra a comunidade LGBTQIA+. Não podia ver na rua que me irritava profundamente. Achava que os mesmos mereciam tudo de ruim no mundo. Falava para amigos mais próximos que se tivesse um filho gay, expulsaria de casa.

Antes que perguntem o que meus pais achavam de tudo isso, esses meus pensamentos ficavam mais para mim, falava sobre isso para poucos amigos. Mas se lembrem também que estamos falando dos anos 90 no Brasil. A realidade era bem diferente.

Então, o tempo foi passando e, como acontece com a maioria das pessoas, comecei a ter meus próprios pensamentos e questionar muitas coisas que falavam. Me distanciei da religião e com 15 anos me encontrei no ateísmo. Sempre respeitei e respeito a religiosidade de todos – desde que me respeitem também – mas a figura de divindades não faz mais sentido para mim.

Entre 2002 e 2003 eu era um ateu estudando em uma escola católica que levava os alunos quase que todos os dias para rezar. Uma matemática que não batia, não é mesmo?

Lembro como se fosse hoje o dia que mudou minhas perspectivas sobre a vida. Fomos, mais uma vez, chamados para uma missa na quadra da escola. Pela primeira vez, decidi me abrir com uma das inspetoras do colégio – sei bem quem é, mas não vou falar o nome. Falei toda minha situação e que não queria ir para a missa. Disse que ela poderia me passar alguma atividade para fazer, pois eu estava ali pela educação. As exatas palavras dela como resposta eu lembro até hoje. “Vá ser ateu longe daqui, aqui você vai assistir a missa e ponto final”. Pegou meu braço e praticamente me arrastou até a arquibancada.

Um sentimento de revolta e ao mesmo tempo não saber como reagir tomou conta de mim. Bastou alguns segundos para eu entender que eu tinha sido vítima de puro preconceito. “Então é isso que os gays sentem todos os dias?”, pensei. Apesar da frustração com a situação, aquele momento me mudou para sempre.

Não é fácil deixar para traz toda uma vida em que você foi ensinado que isso era certo e aquilo era errado. Mas eu resolvi mudar. Passei a me regular, fui tirando palavras  e frases homofóbicas do meu vocabulário. Fui aceitando situações que antes eu não aceitava, mas isso levou tempo. Primeiro aquele velho “certo, pode ser gay, mas longe de mim”. Depois o “pode ser gay, mas não tem que ficar demonstrando em público”. Lembro do dia em que no meio desse processo de mudança achei divertido compartilhar no Twitter uma postagem que defendia a criação do Dia do Orgulho Hétero. Quanta idiotice da minha parte.

Hoje tenho 34 anos, foram quase 20 anos me moldando, sempre buscando deixar esse meu passado homofóbico para traz. Ninguém me obrigou a fazer isso. Fiz por querer mesmo. Fiz por ter me colocado no lugar do outro. Fiz para me tornar um ser humano melhor, que respeita os outros independente de religião, sexualidade, classe social, raça, cor… Se você não é uma pessoa preconceituosa, se é uma pessoa que respeita os outros, te respeito também. É isso que vou passar para os meus filhos.

Não tem essa de geração mimimi ou geração lacradora. O que existe é uma geração que deixou essa história de ‘os incomodados que se retirem’ para trás. Os incomodados com todas as formas de preconceito estão aí e não irão mais embora.

Mudar é preciso e é possível. Eu sou um exemplo vivo disso. Tenho vergonha dos meus pensamentos no passado, por mais que saiba que fui levado a pensar daquela forma, mas resolvi mudar. Todo mundo pode mudar, basta querer e peço desculpas se na minha vida fiz alguém se sentir menor do que é por causa do meu preconceito.

Hoje me considero um ser humano bem melhor do que era, que se revolta sempre que escuta ou percebe alguma ação preconceituosa, mas sigo me regulando e sempre tentando melhorar.

E se lembrem: preconceito não é opinião; se a sua religião te faz odiar alguém, está na hora de mudar de religião.

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