‘Era bonito. Até entender que era um inferno’, diz ex-Arautos do Evangelho

‘Era bonito. Até entender que era um inferno’, diz ex-Arautos do Evangelho
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Leonardo* tinha 10 anos quando conheceu os Arautos do Evangelho. Era 2014 e o garoto ficou impressionado quando entrou na quadra do colégio e viu um grupo de pessoas vestindo hábitos de estilo medieval. Eles tocavam música clássica para uma plateia que parecia encantada. Havia um clima incomum. “Aparentemente, era tudo muito bonito”, lembra o rapaz. “Até eu entender que era um inferno.”

Investigados por assédio e tortura contra crianças e jovens em suas unidades de São Paulo, os Arautos viveram reviravoltas no Judiciário: em abril, a Vara de Infância e Juventude proibiu novas matrículas e determinou que todos os menores de 18 anos que viviam nos internatos da instituição voltassem para suas casas; na quarta-feira (4), contudo, os advogados dos Arautos entraram com recurso e, 24 horas depois, o TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) considerou que não há provas suficientes no processo e derrubou a liminar de primeira instância. A informação foi obtida pelo TAB e confirmada pelos advogados dos Arautos.

A nova decisão frustra o grupo de 50 testemunhas (Leonardo entre elas) da ação coletiva movida pela Defensoria Pública de São Paulo contra a instituição católica conservadora, presente em todo o Brasil. A ação corre em segredo de Justiça. TAB conversou com cinco testemunhas no processo.

Os Arautos do Evangelho são uma associação privada de padres brasileiros, aprovada pelo Vaticano em 2001. Fundada pelo brasileiro João Scognamiglio Clá Dias, ex-membro da TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família, e Propriedade), ela se espalhou pelo país e oferece, em suas instalações, atividades extra-curriculares a crianças e jovens em idade escolar, como aulas de música. O recrutamento acontece em igrejas católicas e em visitas de membros a escolas.

Ansiedade e briga com a família

Desde 2018, quando saiu do grupo religioso, aos 15 anos, Leonardo foi diagnosticado com transtorno de ansiedade generalizada — distúrbio que ele e a família associam à série de traumas psicológicos adquiridos na instituição. Ele foi um dos premiados com uma vaga no projeto “Futuro e Vida”, para ter aulas gratuitas de arte e de esporte.

Leonardo frequentava a igreja dos Arautos aos sábados e domingos. Em seguida, foi animado a aumentar a frequência, acrescentando dois dias para o catecismo. Em um ano, ganhou bolsa de estudos da escola regular. Em 2018, prestes a entrar no ensino médio, foi indicado a uma das vagas no internato do Rio de Janeiro. Foi aí que a relação desandou.

“A mim, eles diziam que havia essa vaga, mas dependia se minha mãe ia permitir. A ela, diziam que não sabia se teria a vaga”, conta. “Comecei a brigar com a minha família, achando que eles estavam me impedindo de ir. Na verdade, os Arautos queriam me colocar contra meus pais.”

Leonardo cursou o ensino médio em uma “escola do mundo”, como o grupo se refere a instituições não religiosas. No primeiro ano, ainda frequentava as missas da igreja vestindo o hábito marrom, estampado com uma cruz de Santiago vermelha e branca, típico dos Arautos. “Mas passaram a me olhar estranho. Meus amigos deixaram de falar comigo. Me senti rejeitado”, lamenta.

Enquanto esteve na escola, Leonardo lembra de ter presenciado casos de racismo e humilhações. “Se a pessoa fosse um pouco mais bronzeada, era xingado. Também havia homofobia. Falavam mal das pessoas, faziam pressão contra elas”, conta. “Éramos desestimulados a qualquer conversa e interação com o que não fosse dali de dentro. Se alguém ouvisse a gente falar de outra coisa, nos levavam para a coordenação”, lembra.

Interior da Basilica Nossa Senhora do Rosario, em Caieiras, dos Arautos do Evangelho - Lalo de Almeida/Folhapress - Lalo de Almeida/Folhapress
Interior da Basílica Nossa Senhora do Rosário, em Caieiras (SP), dos Arautos do EvangelhoImagem: Lalo de Almeida/Folhapress

Um mundo à parte

As primeiras denúncias formais contra os Arautos do Evangelho começaram a ser reunidas em 2019 pelo Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), no bojo de um movimento de acusações públicas de pais e ex-internos da organização.

O órgão ligado à Secretaria da Justiça e Cidadania compilou relatos de assédio e violência, além de constatar irregularidades pedagógicas. Segundo o advogado Dimitri Sales, presidente do conselho, a escola descumpre diretrizes nacionais de educação por impor ideologia religiosa e omitir conteúdos essenciais da formação de crianças e adolescentes.

A partir da análise feita nas apostilas dos estudantes do internato entre 2017 e 2019, o Condepe observou que todas as referências bibliográficas são extraídas de livros de autoria de João Clá ou de Plínio Corrêa de Oliveira, respectivamente criadores dos Arautos e da TFP. O relatório também mostra que assuntos como reprodução e evolução, da disciplina de Ciência, são omitidos ou alterados de acordo com o pensamento religioso, e que nenhum material didático prepara estudantes para o ingresso em universidades.

Em outubro de 2019, o conselho chegou a acionar a Secretaria de Educação do Estado, cobrando fiscalização. “Nada foi feito”, reclama Sales.

Os relatos de ex-internos e familiares se assemelham, principalmente, à denúncia de um comportamento recorrente de alienação parental. “Nossos parentes são chamados de FMR, ‘Fonte da Minha Revolução'”, conta o motorista Alex Ribeiro, 43. Ele passou 18 anos nos Arautos, onde era responsável por arrecadar doações de porta em porta. “Comecei em São Paulo, viajei o Brasil todo e fui para Portugal e Itália”, conta. Em 2013, Ribeiro foi internado em um clínica psiquiátrica, depois de tentar fugir de uma da sede dos Arautos em São Paulo. Ele afirma que foi medicado, amarrado e levou choque.

Segundo Alex Ribeiro e outras pessoas entrevistadas pelo TAB, o afastamento é instigado pelos Arautos como garantia de salvação. “Eles diziam que, quando chegasse o fim do mundo, se fosse preciso, teríamos de matar os próprios pais para nos salvar”, acusa um rapaz, que não quis se identificar.

Para o defensor público Daniel Palotti Secco, coordenador do Núcleo Especializado da Infância e Juventude da Defensoria, “a espinha dorsal” das ações de controle dos Arautos é justamente a quebra de vínculo familiar. O contato com a família é escasso, e, quando acontece, é feito por meio de curtas ligações telefônicas ou por mensagens em um único computador, comum a todos e numa sala vigiada.

Secco afirma que a Defensoria, responsável pela ação coletiva, vai continuar atuando para “buscar proteção de crianças e adolescentes vítimas de violação de direitos”.

Seminaristas do colégio vocacional dos Arautos do Evangelho, em Caieiras, assistem a uma atividade no patio da instituição - Lalo de Almeida/Folhapress - Lalo de Almeida/Folhapress
Seminaristas do colégio vocacional dos Arautos do Evangelho, em Caieiras, assistem a atividade no pátioImagem: Lalo de Almeida/Folhapress

‘Perdi a coisa mais importante’

“Minha filha dizia que queria dedicar a vida a Deus, a rezar. Qual é a mãe que iria proibir isso? Diziam que ela teria aulas de idiomas, música, uma boa formação, de graça. Que mãe não permite isso à filha? Eu não tinha condições de pagar algo assim”, chorava Márcia*, 50, ao telefone. A filha dela está há 10 anos nos Arautos, e, desde que completou 18 anos, afastou-se completamente da família.

A menina morava com a mãe, duas irmãs e o padrasto em Curitiba, e conheceu a escola de música do Arautos depois de uma visita do grupo católico à escola onde ela estudava. “Perdi a coisa mais importante da minha vida”, diz a mulher.

Márcia tentou ajuda de todas as formas, na Justiça e até em mensagens a autoridades via internet, para tentar recuperar a relação com a filha e denunciar o que ela chama de “lavagem cerebral” a que a menina foi submetida na igreja.

Entre as pessoas procuradas por ela está a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), a quem enviou recados no Instagram e por e-mail. “Nunca tive resposta”, reclama. “Há pouco tempo, a gente ficou sabendo que ela se casou no Arautos. Nossa, fiquei de cara. Dá uma raiva tremenda ver pessoas falando do direito das crianças e, quando você tá pedindo ajuda, você não tem. Como fica? Quando você é omisso, é porque algo está encobrindo.”

Em 27 de dezembro de 2019, Zambelli casou-se com o coronel Antônio Aguinaldo de Oliveira em uma cerimônia religiosa realizada na capela dos Arautos do Evangelho em Mairiporã (SP). Naquela ocasião, a deputada federal chegou a publicar nas redes sociais que trocaria “os votos sob a bênção da Sagrada Família, dos Arautos do Evangelho, uma igreja conservadora e abençoada”.

Procurada pelo TAB para comentar as declarações, Zambelli negou que tenha recebido mensagens com as denúncias. “Ou estão mentindo ou precisam me reenviar o que elas alegam ter enviado”, diz, referindo-se a familiares das vítimas. A deputada também afirma que não tem “a função de investigar uma igreja”, mas, “de qualquer forma, acionei o ministério da Damares [Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos] e li o relatório em que todas as crianças foram entrevistadas e não encontraram nada de ilegal.”

Questionada sobre sua relação com os Arautos, se é frequentadora da instituição e o que pensa das denúncias relacionadas a integrantes e líderes do grupo, a parlamentar disse que “é frequentadora como qualquer fiel da igreja católica”, mas ameaçou processar “UOL e quem assinar a matéria” pela pergunta.

“É passível de processo, dependendo da forma como você a colocar e lhe deixo ciente que vou processar caso esse tipo de ilação seja feita” [sic], escreveu Zambelli. “Todas estas denúncias as quais você disse foram arquivadas pela polícia, MP e Judiciário. Posso lhe mandar as provas”, finalizou.

Em nota ao TAB, os advogados Marcelo Knopfelmacher e Felipe Locke Cavalcanti, que representam os Arautos do Evangelho, reforçaram que as acusações contra o grupo religioso não são “verossímeis” e que a acusação de abuso sexual está arquivada desde maio de 2021 “a pedido do próprio Ministério Público do Estado de São Paulo, por serem absolutamente inverídicos os fatos”. “Atualmente, há inquérito policial apurando o cometimento, em tese, do crime de denúncia caluniosa sobre a conduta da parte denunciante.”

Somente após a publicação da reportagem, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo enviou seu posicionamento sobre o caso. O texto afirma que a pasta “não pode exorbitar suas funções” além da “regulação e supervisão do ensino privado, quanto a aspectos administrativos e estruturais” e do “cumprimento pedagógico com base na Base Nacional Comum Curricular”.

A Secretaria confirma que recebeu um ofício do Condepe, em 2019, e que intensificou a supervisão de ensino nos Arautos, com realização de diligências e elaboração de relatórios. Documentos que, segundo a nota, “foram encaminhados às autoridades competentes para compor o processo judicial”.

* Nomes trocados a pedidos dos entrevistados

Fonte: Tab/UOL

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